Pisei Chão

23
jan
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Dia desses tive uma nova conversa com meu amigo da perna quebrada (o nome dele é Rogério). Na minha camisa que tem escrito “Se você obedece todas as regras acaba perdendo toda a diversão”, ele leu “O evangelho segundo Cristo”. Perguntou se eu ainda trabalho na Universidade e no cenário(???). Disse que gosta de Deus, porque quando ele (Rogério) morreu, Cristo o ressuscitou e lhe concedeu nada mais nada menos que a eternidade. Entre um dos (vários) apertos de mão que trocamos, percebi que lhe falta o dedo mindinho de uma das mãos. – O que aconteceu com o teu dedo? – Foi uma aliança que eu coloquei e a bicha inflamou. Aí teve que arrancar. Foi quando eu tava internado no Areolino de Abreu. Perguntei como ele tinha quebrado a perna. – Foi um carro que passou por cima. Doeu, ó Rômulo! O Rogério tirou os ferros da perna. Ficou numa satisfação monstra quando eu disse que ainda vamos jogar bola juntos. Até beijou minha mão! Essas minhas amizades…

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19
jan
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“Sendo um fotógrafo, como você mudaria o mundo? Respondam isso através de uma crônica.”

Essa foi a “simples” missão que o professor de fotojornalismo nos passou.

Durante muitos dias tentei responder mentalmente essa pergunta. Não consegui! E muitos menos obtive êxito em transformar qualquer um dos meus pensamentos vazios em crônica. Mas, o pior de tudo é que essa maldita perguntinha, despretensiosa, formulada sem nenhuma maldade, formou uma “bola de neve” na minha cabeça.

Como eu mudaria o mundo como estudante? Como pessoa? Como jornalista? Como militante estudantil? Como cabeludo? Como filho da Dona Lelêda?

Carai, eu não sei! Poderia ter inventado algo. Sei lá! Dizer que fotografaria o drama das pessoas no árido sertão nordestino; o olhar triste das crianças sem estudo, saúde e lazer; a agonia do meio-ambiente, massacrado pelo progresso urbano. Mas não fiz! Por preguiça, incapacidade ou racionalismo (por que não!?).

Racionalismo por ter consciência que minhas fotos, por mais que expusessem realidades nuas, cruas ou bem passadas, não mudariam o mundo. Talvez rendessem alguns parabéns, ligações, uns dois ou três prêmios e várias promessas de “nós vamos mudar isso”. E poderiam até mudar. Pô, mas não é o mundo, é só uma entre as várias esculhambações que existem.

E mesmo as mais insignificantes mudanças só poderiam ser motivadas se percebidas através da sensibilidade e fragilidade do olho humano e, não, por um aparelho; se captadas não pelo veloz obturador de uma máquina reflex ou o longo alcance de uma tele-objetiva, mas pelas ideologias e inquietações sociais de sujeitos que enxergassem bem além do próprio umbigo; por fotografias que exalassem sentimentos, sons, cheiros, movimentos, poesia; que causassem arrepios; que fizessem o olho brilhar e o coração acelerar. Fotografias que fossem algo além de uma simples peça de exposição ou um mero arquivo pessoal.

“E se organizássemos um exército de fotógrafos?” Sim, eu também pensei nisso. E ainda assim não achei a resposta.

Sinceramente, máquina fotográfica não vem acompanhada de capa e máscara de super-herói. É como falei há algumas linhas acima: poderíamos denunciar algumas realidades e motivar mudanças pontuais, mas nosso sistema corrompido e nosso povo “anestesiado”, quase desprovido da capacidade de se indignar, não permitiriam transformações grandiosas.

Viu? O que parecia um simples trabalho acadêmico transformou-se num “mostro”. Um bicho que me engoliu, mastigou e arrotou apenas uma conclusão com trejeitos de solução: vou começar as obras de mudança por mim. O mundo vem depois!

por Rômulo Maia

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18
dez
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“Carai, vou chegar atrasado de novo. Porque eu insisto em perder esse maldito 801 (linha Santa Fé – Av. Pedro Freitas)? E logo hoje, que esse sujeito estranho, parecido por demais com o Fernandinho Beira Mar, não para de olhar no meu rumo.”
Apoiado em uma muleta, a perna enfaixada e aqueles pinos saltando pra fora da canela, o cara parecia se distrair, alternando olhadelas entre a avenida e eu. Juro, fiquei com medo!
“Lá vem o ônibus”, pensei aliviado. Entrei no 801 com a certeza que nunca mais veria aquele sujeito.
Tadim véi de mim! No outro dia lá estava o Beira Mar piauiense: Avenida – Rômulo – Avenida – Rômulo – Avenida – Rômulo… E no outro e no outro e no outro e no outro… Avenida – Rômulo – Avenida …
Até que um dia cansei de tudo aquilo e fui conversar com ele. Dei risada aliviado: o cara é pirado. Bem pirado mesmo. Daqueles que não falam coisa com coisa.
O medo passou e ele virou meu “amigo”. Toda vez que nos topamos sempre rola um “Iaí!?”.
Bom! Certo dia, quando pisei na calçada do Condomínio onde moro, nosso amigo da perna quebrada me chamou…

– Ei, vem aqui!
– Diga?
– Tu é policial, né?
– Sou!
– Rapaz, é o-o-o-o se-se-seeeguinte: ontem, lá na Praça Saraiva, Maria Mãe de Jesus me derrubou e me bateu. E eu lhe digo o seguinte: se ela fizer isso de novo eu vou matar ela.
– Você tá mais do que certo! Mas se você quiser eu prendo ela.
– Ela me derrubou e me bateu. Eu vou matar ela, porque nem eu tava lá quando Jesus Cristo morreu e nem ele tava quando eu morri. E eu vi ele assaltando o Banco do Brasil ontem.
– Pois eu vou prender os dois.
– Po-po-po-pois tá! Fique com Jesus.
– Você também!

???????????????

Se o que ele falou for real, ficar com Jesus é perigoso, afinal ele é
assaltante de banco e tem uma mãe violenta.

Coisas que só acontecem comigo!

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28
out
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Avenida Frei Serafim. 07 de setembro. Sorrisos, bandeirinhas, gente que acena para gente, carro, cavalo. Soldados que não perdem o compasso (“Um, dois! Um, dois! Um…”). O desfile corre em seu curso natural: Zona Leste – Centro. Há algum tempo atrás tudo acontecia como previsto. Até que um grito secular, de uma dor sufocada no peito dos “sem rosto”, “sem voz” e “sem vez” ecoou por Teresina. Surgia no Brasil o Grito dos Excluídos. A partir desse dia, uma nova corrente segue o sentido contrário da Av. Frei Serafim (Centro-Zona Leste) até desembocar no desfile oficial, acabando com o brilho da ilusão e enfeando o dia com a realidade.
Pelas lentes amadoras do estudante de Comunicação Social, Rômulo Maia, confira os registros fotográficos da 11ª edição do Grito dos Excluídos.









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21
jul
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Ainda caloura, no ano de 2004, a estudante de Comunicação Social, Mayara Suelenn Bastos, ingressou no Centro Acadêmico (C. A.) do seu curso. Com 21 anos, ela está na sua segunda gestão e já aglutina uma boa experiência como militante estudantil. Bastos participou na linha de frente dos maiores momentos do movimento estudantil da Uespi. Ela acredita que a mobilização faz parte da formação acadêmica e é uma espécie de laboratório dos estudantes. Conversamos com Mayara Bastos para nos inteirarmos das ações de integração promovidas pelo C. A. de Comunicação Social e a importância destas para o crescimento do curso e da Universidade. Confiram:
Qual a importância de manter viva a chama da luta acadêmica no curso de Comunicação Social?
Mayara Suelenn – O curso de Comunicação da Uespi possui uma realidade muito problemática e não peculiar em relação às instituições públicas de ensino superior. Uma organização estudantil tem todas as ferramentas necessárias para reivindicar melhorias para o curso, que vão desde a instalação de laboratórios e qualificação do corpo docente, até a luta por um ensino público de qualidade. Na Uespi, torna-se imprescindível os estudantes estarem organizados para defender não digo nem interesses, mas os seus direitos fundamentais. Hoje, o curso de Comunicação sem um centro acadêmico e um colegiado do curso bem articulados e empenhados por melhorias, agravaria em muito a nossa realidade deficitária.

O Centro Acadêmico de Comunicação Social nasceu em 2003, fruto da carência de uma entidade estudantil organizada, que pudesse cobrar com mais força as melhorias necessárias para o pleno funcionamento do curso. Você acredita que instalados todos os laboratórios, a luta chega ao fim?
M. S. – Não, pelo contrário. Um dia poderemos até possuir um curso ideal, mas a luta estudantil não pode ter um fim nela mesma. Ela deve ser contínua. Sempre terá algo a ser melhorado, qualificado ou inovado. As reivindicações não podem se limitar à conquista de um laboratório ou livros na biblioteca. Devemos buscar, incessantemente, novas bandeiras de lutas, como a nossa própria qualidade de formação, que vai muito além da instalação de laboratórios e pode ser otimizada através de debates e discussões levantadas por nós, estudante.

O Centro Acadêmico de Comunicação Social (Comuns) aglutina; integra os acadêmicos, politicamente falando?
M. S. – Sim, mas ainda temos muito o que integrar. Precisamos trazer mais estudantes que possam militar no movimento estudantil da Uespi e de Comunicação, ou seja, dar continuidade ao trabalho que vem sendo realizado pelo Comuns. A integração política no curso ainda tem que ser melhorada. Considero que estamos dando o primeiro passo de uma longa caminhada.

E você acha que as entidades representativas podem conseguir essa integração através de festas?
M. S. – Acho que festas não integram ninguém. Integração vai além de uma porção de pessoas reunidas, bebendo e dançando. Integrar, pra mim, é discutir, debater, confrontar idéias. As festas são válidas, sim, quando não interferem ou não são prioridades na busca de conquistar os estudantes em prol de uma construção coletiva e política.

Você falou que estão realizando os primeiros passos no que diz respeito a uma maior integração. E se um dia conseguirem uma plena participação da comunidade acadêmica, que benefício isso trará?
M. S. – Além dos ganhos políticos e acadêmicos para a Uespi e para o nosso Curso, a escola que o Movimento Estudantil representa na vida da estudante vai além da militância. Ela constrói uma perspectiva de agente social e preparo para compreender e agir frente aos meios políticos da sociedade. Assim, no mercado de trabalho, este estudante tende a se destacar, por já trazer uma bagagem de crítica e ação frente à sociedade. Isso lhe permite uma maior fluência junto a essa mesma sociedade, do que alguém que apenas se restringiu à sala de aula. O movimento estudantil acaba sendo parte da formação e laboratório dos estudantes.

E quais os principais momentos do movimento estudantil do curso de Comunicação Social? Os momentos que você considera terem sido essenciais para o crescimento da universidade?
M. S. – O Comuns sempre esteve presente nos momentos importantes da universidade: Congresso Estudantil da Uespi – CONEUESPI; Assembléia de destituição da gestão do Diretório Central dos Estudantes – DCE; criação da Liga dos Centros Acadêmicos. Todos momentos históricos da nossa Universidade, que foram importantes por despertar uma mobilização que estava adormecida. Quando o aluno se organiza, se mobiliza, quem sai ganhando é a Universidade e a sociedade, pois dali sairão bons profissionais.

E mobilizações voltadas especificamente para o curso, existiram?
M. S. – Lógico! Participamos ativamente do processo de reconhecimento do curso, juntamente com a coordenação; o Comuns esteve sempre se mobilizando em prol de melhorias para a Uespi; elaboramos projetos e eventos que viessem a suprir algumas dificuldades do nosso meio acadêmico; sempre estivemos empenhados em levar os alunos para encontros de Comunicação nacionais e regionais; recentemente organizamos, em conjunto com o colegiado, o evento reflexivo sobre os cinco anos de fundação do nosso curso. Já foram criados vários espaços de discussão e mobilização.

De que forma as ações citadas podem ajudar no crescimento das pessoas?
M. S. – Como o nosso curso passa por muitas dificuldades em termos de estrutura, então, esses espaços são meios de contribuir no crescimento intelectual dos alunos e fazer, principalmente, com que eles ampliem suas visões de mundo; de universidade; e não se restrinjam apenas aos conhecimentos da sala de aula.

O Comuns contribui com a construção da boa imagem do curso dentro e fora da universidade?
M. S. – Sem dúvidas, a atuação do Comuns, ao longo de especificamente dois anos, tem conseguindo com êxito construir a imagem de um C. A. atuante e compromissado com as causas estudantis do Curso e da Uespi. Isso vem sendo feito quando participamos de todas as discussões existentes e realizamos ações na construção de uma universidade de qualidade. Uma atuação nesse nível constrói uma relação de respeito com outros cursos, com a administração superior da instituição e com outras escolas, além de nos dar destaque em relação aos demais cursos da área.

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21
jul
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*por Rômulo Maia

No dia 21 de junho de 1967, cinco homens cegos se uniram – um Deputado Estadual (Adirceu Nunes), um Vereador (Joel Lorêdo), um topógrafo e dois empresários (Emanuel Veloso e Gerardo Nogueira) – e fundaram a Associação de Cegos do Piauí (ACEP).

Criada com a intenção de resgatar as pessoas cegas da vida de pedintes e “recuperar as sucatas humanas que perambulavam pelas ruas da capital piauiense” (frase de Emanuel Veloso), a ACEP ainda mantêm seus princípios iniciais e trabalha com o propósito de investir na educação e, principalmente, preparar os cegos para o mercado de trabalho.

O bom andamento da Associação fica evidente desde a limpeza de suas paredes até a organização da sua diretoria, que é composta por 10 diretores e seis membros do conselho fiscal. Desfazendo a lógica dos movimentos sociais atuais, onde o refluxo é uma problemática constante, a entidade conta com 800 associados e na última eleição direta, realizada para escolher a nova diretoria, três chapas se organizaram e concorreram na disputa eleitoral.

“A única exigência para que a pessoa se associe, é que ela queira se resgatar para a sociedade. O processo de aprendizagem é eterno e, nós, como cegos, temos que estar aprendendo e sempre aprimorando os nossos conhecimentos”, explica o Tesoureiro da ACEP, o jornalista Francisco Costa.

Chico Costa, como gosta de ser chamado, é cego de nascença e desde 1999 é formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Costa também é bacharel em Letras/Português e especialista em lingüística pela UESPI.

Mais de 30 sócios da ACEP já concluíram o ensino superior. Desse total, cerca de 29 passaram pelos cursos oferecidos pela Associação. Alguns deles começaram desde a pré-escola.

ESTRUTURAS E ATIVIDADES

Dentro da entidade funcionam duas escolas: um pré-escolar – Tia Graça Néri –, que tem como principal objetivo a integração da criança cega com a dita “normal” e o Centro de Habilitação e Reabilitação para Cegos. O Centro funciona como uma escola de reforço para alunos que estudam na rede pública ou privada. Recebem assistência direta das duas escolas, 156 pessoas.

Na ACEP, o deficiente visual é capaz de aprender a pregar um botão, a engomar uma roupa, a cozinhar, a limpar uma casa, a ter orientação e mobilidade. A alfabetização é feita através do braile, que é a forma universal de comunicação dos deficientes visuais (confira box).

Além disso, com o avanço da informática, os cegos já podem desfrutar dos recursos tecnológicos oferecidos pela computação. “Programas adaptados ao computador permitem que os usuários acionem o teclado e ele emita sons, identificado a tecla acessada. Isso facilita o processo de aprendizagem da pessoa cega. Nós contamos com um laboratório de informática adaptado dentro da associação e a partir desse ano, todos os alunos que estiverem no primeiro grau, receberão, obrigatoriamente, aulas de computação”, informa Costa.

A entidade conta também com uma biblioteca com livros em braile; um restaurante que é mantido com a ajuda da sociedade e das autoridades competentes; um veículo que transporta os estudantes que não tem orientação em mobilidade; e em breve contará com um gabinete odontológico, que já está sendo equipando.

Existe ainda um departamento cultural, com um setor de música funcionando, e várias atividades, como peças de teatro e danças, sendo ensaiadas. Alguns alunos praticam futebol de salão e natação. “Isso mostra a nossa disposição em investir não só na capacidade intelectual das pessoas, mas também nos dons artísticos e esportivos”, esclarece Chico Costa.

CORPO TÉCNICO
O corpo técnico da ACEP é formado por servidores cedidos pela Prefeitura de Teresina e pelo Governo do Estado. Essas parcerias têm ajudado a Associação a se desenvolver.
Formam o corpo técnico da entidade uma assistente social e os diretores, orientadores e coordenadores das duas escolas. “Uma equipe pequena, mas eficiente”, descreve Costa.

DIFICULDADES


A principal dificuldade da ACEP é a ausência de um maior assessoramento técnico. Se dependesse da vontade e dos planos da diretoria, eles contariam com psicólogos, orientadores educacionais e clínicos gerais, além de um gabinete oftalmológico, que a diretoria está empenhada para viabilizar o mais rápido possível.

“SE NÓS IMPLANTARMOS A POLÍTICA DO CONFORMISMO, A VIDA VAI SER UM POUCO MAIS COMPLICADA”.
Com essas palavras, o jornalista Chico Costa deixa clara a disposição da diretoria e dos sócios da ACEP em estar batalhando constantemente em prol de melhorias para a pessoa cega. “Temos trabalhado muito como dirigentes dessa entidade. A Associação de Cegos não deixa a desejar perto de outras instituições que existem pelo Brasil. É uma instituição séria! Não é a toa que está a 39 anos batalhando em prol da pessoa cega”, diz Chico Costa, afirmando ainda que nunca ficarão conformados com o que têm: “Sempre que conquistarmos algo novo, estaremos pensando em novas batalhas para encampar”.

(…) A ASSOCIAÇÃO DE CEGOS DO PIAUÍ NÃO É UM DEPÓSITO DE PESSOAS CEGAS (…)” (Chico Costa)

Da união matrimonial de dois primos legítimos, nasceram três filhos. Todos portadores de deficiências. Um deles é o Tesoureiro da Associação de Cegos do Piauí, Francisco Costa ou Chico Costa, como é popularmente conhecido. Costa é o primeiro Jornalista piauiense cego com formação acadêmica em Comunicação. Ele trabalha na área desde a década de 80, mas se formou apenas em 1999, pela UFPI.

O senhor é formado em jornalismo pela academia ou é do “batente”?
Eu me formei em jornalismo em 1999 pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Também conclui o curso de Letras/Português e fiz especialização em Lingüística pela UESPI. Mas bem antes de entrar na Universidade eu já era locutor de rádio; desde a década de 80. Atualmente apresento um programa na Rádio Antares AM.

Sua deficiência visual é de nascença ou foi causada por alguma doença degenerativa?
Meu problema é hereditário. Meus pais são primos, e isso gerou meu problema e de mais dois irmãos. Porém, a deficiência nunca me impediu de conquistar meus objetivos. A vida segue e a deficiência que fique “de lado”. Ela não vai me tornar uma pessoa impossibilitada de conquistar meu espaço na sociedade.

Quais as principais dificuldades que o senhor enfrentou na época da Universidade?
Se você perguntar: “Existe preconceito?”. Ainda existe. Eu particularmente culpo a nossa cultura. As pessoas não são preparadas para viver ou conviver com “o diferente” e querendo ou não, nós somos “diferentes”.
Hoje é fácil estar com um discurso legal, falando com muita segurança e precisão, mas eu enfrentei diversos obstáculos, vários preconceitos e discriminações latentes. Se não formos determinados, que é algo essencial para uma pessoa cega ou deficiente em geral, nunca iremos atingir aquilo que pretendemos. É claro que a sociedade vai poder fechar as portas para você. E quando estão fechando portas, você tem que aprender a abrir janelas, para que elas te levem a diversos lugares.


Quais seus cargos na direção da Associação de Cegos do Piauí?
Sou o Tesoureiro da Associação e ocupo a direção do Centro de Habilitação e Reabilitação para Cegos, que faz parte da ACEP.

O que é necessário para a ACEP atingir boa parte dos objetivos propostos pela diretoria?
Só vamos conseguir atingir todos os nossos objetivos se a sociedade, as autoridades perceberem que a Associação de Cegos do Piauí não é um depósito de pessoas cegas e, sim, uma instituição que trabalha com o “resgate” dessas pessoas.

“ANTIGAMENTE EU APENAS SONHAVA, MAS AGORA VEJO QUE ESSE SONHO PODE SE TORNAR REALIDADE.”
(Isaias Pereira)

Certo dia, quando Isaias Pereira entrou em um ônibus coletivo, um fiscal da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (STRANS), cobrou-lhe a carteira do passe-livre (documento que permite o acesso gratuito ao transporte coletivo de Teresina). Como não possuía o documento e diante da ameaça de não ter mais gratuidade nos ônibus, Pereira, por indicação do fiscal da STRANS, procurou a Associação de Cegos do Piauí. A intenção era apenas ter acesso ao direito garantido por lei. Sete anos após aquele episódio, Isaias Pereira, 28 anos, que era analfabeto e funcionário de uma panificadora, estuda no ensino fundamental oferecido pela ACEP e apresenta um programa semanal na Rádio Antares AM. A conquista do espaço na rádio veio após participar de uma oficina idealizada pela ACEP em parceria com a Fundação Antares.

O senhor está na Associação há quanto tempo?
Cinco anos e um mês.

Qual a diferença do Isaias antes e depois de freqüentar a ACEP?
Eu cheguei aqui através de um fiscal da Strans, que ameaçou que se eu não pagasse passagem, não poderia mais descer pela frente do ônibus. Ele sugeriu que eu procurasse a Associação dos Cegos para tirar o passe-livre. Eu vim pensando que o único benefício que existia era o passe-livre. Não tinha conhecimento disso tudo (falando da estrutura e das atividades).
Quando cheguei aqui, me deparei com uma situação que não esperava: para tirar o passe-livre pela Associação, eu teria que estudar. Vim a primeira vez em 1999 e não quis ficar. Preferi me dedicar ao trabalho. Em 2001, cansado da rotina diária e da falta de perspectivas da minha vida, resolvi procurar novamente a ACEP. Voltei não mais pensando na carteira, mas em outro futuro: o estudo. Hoje, você fala com um novo Isaias. Um Isaias que pensa em se formar em comunicação. Antigamente eu apenas sonhava, mas agora vejo que esse sonho pode se tornar realidade.

Você possui alguma atividade profissional?
O Chico Costa, juntamente com o diretor da rádio Antares, Jesser Silva, fizeram um projeto, juntaram 11 pessoas cegas e ministraram uma oficina de rádio. Dessas 11, sobraram dois: o Luis Sampaio e eu. Nós apresentamos o programa De olho na cidadania, todos os domingos, das 10 às 12 horas. Nosso programa já está completando oito meses. Essa experiência está sendo muito legal e ficaremos lá (na Antares) até o dia que a emissora nos permitir.

Que enfoque é dado ao programa?
Buscamos trabalhar a inclusão de pessoas com deficiência na sociedade. O programa foca principalmente a Associação dos Cegos, mas é aberto para as outras entidades e para a população de um modo geral.

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